Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Adivinhação

 

Sentei o meu rabo numa espécie de bifurcação de plástico mole, posicionada estrategicamente num sítio alto, para que eu pudesse experimentar com um primor inigualável, a minha novata visão do tipo “vejo para além do que vejo”. E isto funcionava, porque quando olhei para uma bola de sabão já vazia com o tempo e rompida com os pontapés dos cachopos que jogam descalços, vi para além do que via e vi, portanto, o outro lado dessa bola. E é neste exacto momento que as pessoas pensam “Ah! Ó rapaz, tu és uma aldrabice, porque a bola de sabão é transparente e redonda e, desta forma, é excessivamente fácil de fazer esse tipo de “adivinhação”.” Não sou nenhum impostor, o exemplo é que foi mau.
 
Continuei a olhar, muito placidamente, para tu o que me abrangia. Vi um rafeiro no marmelanço com uma cadela que era três vezes maior que ele, vi um cutelo espetado bem no abdómen de um senhor ali de cima que vocês não conhecem e, assim de repente, admirei também dois belos pães com chouriço do bom, que me matavam a larica. Mas tudo isto eram também maus exemplos. Não podia ver para além do que via, ou dito de maneira a desmontar a frase anterior, não podia adivinhar o outro lado das coisas, porque já as conhecia. Os pães com chouriço estavam a ser mastigados por baixo dos meus olhos, portanto eu já vira o outro lado deles no acto de levar a paparoca à boca; o cutelo está num nível superior de adivinhação, era demais para mim; e a cadela que estava a ser montada por um rafeiro era uma amiga minha muito feia lá da escola.
 
Fiz um esforço suplementar. Olhei, através de um serrado olhar capaz até de morder o vento para conseguir o seu propósito. Apurei os sentidos. Estava a ser muito pressionado pelo mundo, que no fundo era só o meu subconsciente a fazer de mundo. Enganando o mundo, estava a enganar o meu subconsciente e enganando este estava a enganar a mim próprio. Então, admiti a mim mesmo, ao meu subconsciente e, consequentemente, ao mundo que eu era um trafulha de primeira e um aldrabão nato. Pousei, como quem atira, a tal novata visão do tipo “vejo para além do que vejo” para o chão. Descolei o rabo da bifurcação mole, dei três passos para trás, dois para a direita, dois para a esquerda e mais dois para trás. Apertei a sapatilha e funguei o nariz. Como já tinha tirado o “vejo para além...” coloquei o meu olhar, tipo, ódio. Corri usando toda a minha força de pernas e aproveitando a mesma, mas só da direita, chutei o olhar que não tinha funcionado para muito longe. Dizem que foi ter muito longe mesmo. E foi depois de todo este cansaço que jurei nunca mais comprar olhares nos chineses para enganar as pessoas com conversas de adivinhação.
publicado por pacotesdeleite às 14:30
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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Amo-te camionista

Estou apaixonado.

Apaixonei-me por uma camionista que torna cheio de gáudio este meu coração que recebe todo o amor que aquela matulona tem para dar.

Adoro quando estamos sentados no sofá e ela sorri, num sorriso que em todo o seu momento transmite afectividade e desejo de me ter, e diz “Põe esse courato que caiu ao chão dentro de uma pada, que eu estou capaz de comer um boi. Não te preocupes, que se eu ainda ficar com fome como o resto do almoço.” Eu não tenho dúvidas, isto é amor.
Quando não privilegio da presença dela, permaneço pacífico em devaneios e vêm-me à memória ideias roliças e um pouca vagabundas para práticas curiosas. Porém, quando os cento e dez quilos dela estão apoiados no chão a dez centímetros de mim, rejuvenesço em júbilo. E é engraçado que ele presente o que sinto e pede logo “Paixão, posso sentar no teu colinho?” ao que eu respondo “Sinceramente, não me apetece ficar com as pernas da espessura de fatias de fiambre.”
Ela é linda e mais linda fica quando penteia o bigode ou quando rapa os pêlos das costas. A maioria das pessoas pensa que eu estou a dizer isto em tom de brincadeira, mas não. Eu gosto mesmo quando ela rapa os pêlos das costas. Ela quase não tem defeitos. Aliás, os únicos defeitos dela são não lavar os dentes e dizer muitas asneiras.
Aprecio passar com ela instantes românticos ao som dos “Porcos Selvagens”(ela gosta da banda e eu faço um esforço para ouvir). Mas por acaso, devo dizer que ela cozinha muito bem, contudo quando dá futebol, recusa-se a cozinhar. Diz-me ela nessas alturas “Ó estúpido, já para a cozinha fazer o jantar, enquanto eu vejo o Benfica. Traz uma cerveja e faz o meu prato favorito.” E lá vou eu até à cozinha fazer-lhe papas de sarrabulho. Eu faço sempre a mais, já sei que ela vai repetir três ou quatro vezes. Gosto quando, em tom de agradecimento, arrota o meu nome. Ela é uma querida.
E quando fazemos amor? Ela deita-se na cama, completamente despida. Devo confessar que demoro um pouco mais do que ela, porque ainda tenho que reunir o material de escalada. Às vezes fico um pouco preso na segunda banha da barriga a contar de cima para baixo, mas lá me desenrasco.
 
Porém, não quero que pensem que ela é uma mulher de sonho.
Ela ressonava muito alto e eu acabei com o namoro.
Troquei-a pelo camião dela. São os dois do mesmo tamanho, mas o camião não gasta dezenas de euros em doçarias.

publicado por pacotesdeleite às 22:58
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